Em A Lei do Inverno, de Gemma Ventura Farré, a perda não surge como um vazio abrupto, mas como um território delicado, cheio de ecos, imagens e permanências invisíveis. Este é um livro que se lê quase como quem contempla um quadro: devagar, em silêncio, deixando que cada detalhe revele novas camadas de significado.
No centro da narrativa está uma mulher que vela o avô nos seus últimos dias. Nesse tempo suspenso, feito de espera, fragilidade e memória, a protagonista aprende a olhar para a ausência de uma forma diferente.
A obra constrói-se como um verdadeiro mosaico visual. Há a natureza – crua, cíclica, inevitável – que espelha a própria vida: a primavera da infância, livre e inocente, e o inverno da velhice e das perdas, marcado pelas despedidas. Há também a pequena terriola onde a história decorre, povoada por figuras quase simbólicas, personagens que parecem carregar metáforas sobre o tempo, o medo, a solidão e a necessidade de reconhecimento.
Este espaço torna-se um lugar de encontros e desencontros, onde convivem aqueles que partem e aqueles que ficam. É ali que descortinamos uma das ideias mais belas do livro: a de que a vida se move como um pêndulo: afastamo-nos, regressamos, perdemo-nos, reencontramo-nos. Nada é estático. Tudo faz parte de um ciclo maior.
«[…] Há um sucateiro a empurrar o carrinho com os relógios que roubou e que grita, “tenho tanto que fazer, não consigo prender o tempo!”; há uma mulher que vai todos os dias à estação e, quando vê o comboio a chegar, se assusta e volta a correr para casa (...). E no centro, há um pêndulo que explica a vida de todos: aquilo de que fugimos é aquilo para o qual voltaremos.» No mesmo espaço também se encontram «vários mendigos a pedir esmola. Mas não pensem que pedem dinheiro, não são pobres, ou são, mas trata-se de outro tipo de pobreza. O que procuram é aprovação[…].»
Mais do que um romance sobre perda, A Lei do Inverno é uma reflexão sobre aquilo que permanece. Sobre os laços invisíveis que resistem ao tempo. Sobre a forma como as memórias nos acompanham e continuam a dar sentido ao presente.






Deixe um comentário