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África não é um pano de fundo

Há uma grande diferença entre visitar um país e permitimo-nos que ele nos transforme. Em África, Meu Amor, de Lea Kampe, Karen Blixen chega ao Quénia como proprietária de uma plantação de café, contudo, é a relação com a terra, com as famílias que ali vivem, e com uma comunidade que se torna sua, que define a sua história.

O livro segue Karen em 1923, quando decide criar uma escola na quinta depois de perceber que uma criança que não sabe ler corre perigos evitáveis. Essa decisão, aparentemente simples, enfrentou resistência: educar também é uma forma de redistribuir poder, abrir caminhos e recusar aceitar que o futuro de alguém deve estar limitado pelo lugar onde nasceu.

«A terra que aprendeu a amar como se fosse sua» é um bonito dizer, mas merece ser proferida com cuidado. Karen pode amar o Quénia, pode criar laços reais e defender as pessoas da sua comunidade, ainda assim, é importante notar que a sua presença está inserida num contexto colonial, em que a terra, o trabalho e as decisões não pertenciam, de forma igual, a quem lá vivia.

Assim, ler este livro juntamente com Portugueses em África oferece uma oportunidade para discutir a responsabilidade de quem chega de fora, confrontando a nossa tendência de celebração ingénua do colonialismo. Estimar um lugar não dá direito a possuí-lo, e ajudar não substitui reconhecer a agência, o conhecimento e a história das comunidades locais.

Ler os dois livros em paralelo permite evitar dois extremos: reduzir África a uma paisagem exótica ou apagar a complexidade das histórias de encontros entre povos. África (um termo só por si redutor) não é um cenário para a realização pessoal de uma europeia, é um continente de histórias próprias, vozes diversas e futuros que nunca deixaram de ser construídos pelas suas comunidades.

Portanto, quando dizemos que um lugar nos mudou, estariamos dispostos a ouvir o que esse lugar, e as pessoas que lá vivem, teriam a dizer sobre nós?

   

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