Muito antes de Portugal ouvir falar de celebridades internacionais, nasceu uma mulher portuguesa que encantou reis, imperadoras e plateias por toda a Europa. O seu nome era Luísa Todi e a sua voz conquistou palácios inteiros.
A história da célebre cantora lírica é recuperada em 100 Datas que Fizeram a História de Portugal, de Pedro Rabaçal, um livro que revisita episódios, figuras e momentos marcantes do país.
Nascida em Setúbal, em 1753, Luísa Rosa de Aguiar cresceu numa família numerosa e com dificuldades financeiras. Tinha apenas dois anos quando sobreviveu ao terramoto de 1755, escondendo-se no fogão da casa da família. Talvez ninguém imaginasse, naquela altura, que aquela criança se tornaria uma das artistas portuguesas mais admiradas do século XVIII.
A música entrou cedo na sua vida através do pai, professor de Música, que incentivou os filhos a seguir esse caminho. Aos 14 anos, Luísa subiu ao palco pela primeira vez, ainda sem suspeitar da dimensão da carreira que a esperava.
Mais tarde, apaixonou-se pelo violoncelista napolitano Francesco Saverio Todi, com quem casou apesar da diferença de idades. Passou, então, a ser conhecida como Luísa Todi, nome que rapidamente ecoaria além-fronteiras.
Depois de uma estreia pouco conseguida em Londres, foi em Paris que tudo mudou. Nos famosos Concertos Espirituais do Palácio das Tulherias, a soprano portuguesa tornou-se um fenómeno. A rivalidade com a cantora alemã Gertrude Mara dividia o público entre todistas e maratistas, numa espécie de fandom do século XVIII criado, em parte, para aumentar a venda de bilhetes. Ainda assim, para muitos franceses, a vencedora era óbvia. Um crítico musical recordou a célebre resposta de um espectador quando lhe perguntaram quem era superior: «C’est bien Todi.»
O sucesso levou-a por toda a Europa. Frederico II da Prússia tentou contratá-la. Catarine II, a Grande, da Rússia, convidou-a para atuar na corte imperial e acaba por lhe oferecer uma tiara de brilhantes depois da sua interpretação em Didone abbandonata. O que seriam dois espetáculos transformaram-se em quatro anos de permanência na Rússia.
Mas a vida de Luísa Todi esteve longe de ser apenas triunfos. Apesar da fama internacional, enfrentou problemas constantes causados pelo vício do jogo do marido, perdas financeiras e, mais tarde, graves problemas de visão que acabariam por deixá-la cega aos 69 anos.
Quando regressou definitivamente a Portugal, em 1801, encontrou um país onde a sua fama internacional pouco significava. Durante as invasões francesas, fugiu do Porto, tal como milhares de pessoas, e sobreviveu ao desastre da Ponte das Barcas, embora com a perda de muitas das joias acumuladas ao longo da carreira.
A mulher que recebera presentes de imperatrizes e conquistara os maiores teatros europeus terminou a vida quase esquecida, morrendo em Lisboa, em 1833, aos 81 anos.
Ainda assim, o legado permanece. Luísa Todi foi muito mais do que uma cantora lírica: foi uma artista portuguesa que conquistou a Europa numa época em que poucas mulheres tinham espaço para o fazer, e que transformou talento, ambição e resistência numa carreira verdadeiramente extraordinária.






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