Há uma ideia muito vendida sobre crescer: a de que ser forte é desenrascar-se sozinho. É essa premissa que Margaret McDonald, em Os Rapazes de Glasgow, encara e contesta: talvez a força esteja precisamente em deixar alguém «entrar».
Finlay e Banjo cresceram no sistema de acolhimento, onde o afeto nunca foi uma certeza e a estabilidade uma miragem. Por isso, os dois aprenderam formas diferentes de sobreviver: Finlay fecha-se, tenta ser invisível e acredita que não merece ocupar demasiado espaço; Banjo explode, afasta as pessoas antes que elas o possam abandonar. Não são «rapazes difíceis», são rapazes que aprenderam que precisar de alguém pode pôr em causa a sua sobrevivência.
Em Os Rapazes de Glasgow, a fragilidade não aparece como um momento cinematográfico, com grandes discursos e lágrimas perfeitas. Observamo-la na dificuldade em aceitar um abraço, numa refeição que alguém prepara, numa mensagem respondida, na ansiedade de ser visto ou, mais, de ser visto com carinho. Para quem nunca teve uma rede de apoio segura, a gentileza pode parecer uma ameaça.
McDonald escreve sobre masculinidade sem transformar Finlay e Banjo em símbolos. Eles não existem para provar que «os homens também choram», mas como pessoas inteiras, contraditórias, por vezes irritantes, quase sempre com medo. O mais bonito em Os Rapazes de Glasgow é que não trata o amor apenas como romance; encontramo-lo na amizade, nas famílias de acolhimento, nos colegas de trabalho e nas pessoas que escolhem ter paciência. O livro lembra-nos que a found family não apaga o passado, mas pode dar-nos novas ferramentas para não ficarmos presos nele.
É uma leitura dolorosa, mas não miserabilista. A esperança aqui não chega como milagre: constrói-se devagar, através de pessoas que ficam, de perdões imperfeitos e da decisão diária de acreditar que se merece mais do que sobrevivência. Os Rapazes de Glasgow não desvela apenas quem somos depois da dor; incita quem poderíamos ser se, pela primeira vez, nos deixássemos cuidar.






Deixe um comentário