Em O Capote, Nikolai Gógol começa com uma premissa trivial – um funcionário precisa de comprar um casaco novo – e termina a explorar algo muito mais inquietante: até que ponto aquilo que possuímos pode alterar a forma como nos vemos e como os outros nos veem?
Akáki Akákievitch é um homem quase invisível. Vive para o trabalho e não parece desejar mais do que aquilo que já tem. Mas, quando o velho capote deixa de servir, a necessidade de comprar um novo transforma-se, inesperadamente, num acontecimento.
Pela primeira vez, Akáki tem um objetivo. Poupa, abdica de pequenas coisas e começa a imaginar o momento em que vestirá o novo capote. A peça de roupa passa a ocupar um espaço desproporcional na sua vida, quase como se, ao vestir um novo exterior, pudesse também tornar-se uma nova pessoa.
E, de certa forma, torna-se. O novo capote faz aquilo que o próprio Akáki nunca conseguiu: chama a atenção. Os colegas reparam nele, tratam-no de outra maneira e incluem-no numa ocasião social. Durante um breve momento, deixa de ser apenas o funcionário insignificante que todos conhecem.
Gógol leva esta transformação ao absurdo; mas o capote não é apenas proteção contra o frio. É estatuto, identidade, desejo e pertença.Aquilo que vestimos pode mudar a maneira como os outros nos tomam, e até a maneira como nos sentimos dentro da nossa própria pele.
O Capote integra este volume juntamente com O Nariz, O Retrato e Diário de um Louco, quatro narrativas onde Gógol transforma situações absurdas em reflexões surpreendentemente humanas sobre identidade, sociedade e condição humana.






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