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Nem tudo o que não é dito fica por dizer

Há silêncios que são confortáveis, enquanto outros deixam uma divisão inteira estática. Sentimo-lo num olhar que demora demasiado; numa porta que se fecha; numa regra que ninguém explica, mas todos sabem; numa pergunta que fica sem resposta; num «está tudo bem» demasiado rápido que nos faz perceber que, provavelmente, não está. Passamos grande parte da vida a tentar interpretar os outros, a procurar pistas nas palavras, naquilo que vem antes delas e, sobretudo, naquilo que fica por dizer.

Uma das ideias exploradas em A Arte de Ler Mentes, de Henrik Fexeus, é a de que o corpo está constantemente a revelar aquilo que a mente está a sentir. Uma alteração na respiração, uma mudança no olhar, a postura, a transpiração ou até uma reação quase impercetível podem denunciar emoções que a pessoa não verbalizou.

Na ficção, a diferença entre aquilo que é dito e aquilo que realmente está a acontecer pode tornar-se ainda mais inquietante. Em A Madrasta, de Samantha Hayes, por exemplo, Fiona entra numa família onde existem regras para praticamente tudo: não falar do passado, não sair sem motivo, não usar a Internet depois de determinada hora, confessar diariamente o que fez e, inevitavelmente, pensar duas vezes antes de quebrar qualquer uma das regras. À primeira vista, regras são apenas regras. Mas algumas fazem pairar imediatamente uma pergunta: porque é que alguém precisaria de uma regra para proibir uma coisa que não deveria sequer ser um problema? E talvez seja essa a razão pela qual os mistérios nos prendem tanto, já que não é apenas aquilo que sabemos que nos inquieta; é aquilo que percebemos estar ali, mesmo quando ninguém o explica.

Até O Capote, de Gógol, pode ser lido a partir desta ideia. Akáki Akákievitch passa grande parte da vida sem ser verdadeiramente escutado ou reconhecido. É quase invisível para os outros. O problema não é apenas aquilo que lhe fazem; é também tudo aquilo que ninguém parece capaz de ver. Há pessoas que falam muito e escondem ainda mais, ao passo que outras quase nada falam e dizem tudo pelo que fazem. E, não raras vezes, o que não foi dito é precisamente a parte mais importante da história.

          

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