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Entrevista Júlia Martí - Mulheres que se Exigem Demasiado

Júlia Martí, psicóloga, explica como podemos libertar-nos da autoexigência desmedida e do peso da culpa. Nesta pequena entrevista, revela dicas e exercícios preciosos para leitoras de todas as idades.

Como pode uma mulher identificar a diferença entre uma exigência saudável e uma autoexigência excessiva que acaba por a prejudicar?

A exigência saudável costuma estar ligada a um valor pessoal: quero fazer bem, quero crescer, quero comprometer-me com algo que é importante para mim. Há esforço, sim, mas também há respeito pelos próprios limites. Se num dia não consegues chegar a tudo, pode haver frustração, mas não um ataque interno constante. Há espaço para o erro, para o descanso e para ser humana.

A autoexigência excessiva, pelo contrário, não nasce do desejo, mas do medo. Medo de não ser suficiente, de não ser válida, de desiludir, de perder o amor ou o reconhecimento. Nesse caso, a exigência deixa de ser uma escolha e transforma-se numa obrigação interna interminável. Faças o que fizeres, nunca é suficiente. O diálogo interno é duro, crítico e pouco compassivo. E o corpo começa a dar sinais: cansaço crónico, ansiedade, dificuldade em parar sem sentir culpa.

Uma chave muito clara é esta: quando a exigência te afasta de ti mesma, das tuas necessidades e do teu bem-estar, já não é saudável ─ é uma forma de maus-tratos a ti própria, muitas vezes altamente normalizada.

Quais são os sinais mais comuns de que estamos a viver para corresponder a expectativas externas e não às nossas próprias necessidades?

Um dos sinais mais claros é que a tua vida está organizada em torno de não falhar, mais do que de viver com sentido para ti. As tuas decisões não partem tanto de «eu quero isto», mas de «é isto que tenho de fazer», «é o que se espera» ou «é o que deveria fazer».

Costumam surgir coisas como:

•    Dificuldade em dizer que não, mesmo quando estás exausta.
•    Sensação constante de estar atrasada, de não chegar a tudo, de estar sempre em dívida.
•    Culpa quando descansas ou escolhes algo só para ti.
•    Muita responsabilidade em relação aos outros e muito pouca em relação às tuas próprias necessidades emocionais.
•    Diálogo interno focado em render, cumprir, cuidar, mas não em sentir ou precisar.
•    Desconexão de perguntas básicas como: «o que me apetece?», «o que preciso agora?», «o que me faria bem a mim?»

Quando vives assim durante muito tempo, podes até perder o contacto com os teus próprios desejos. Sabes muito bem o que os outros esperam de ti, mas tens dificuldade em identificar o que queres tu, além de continuar a corresponder.

Que pequena mudança prática recomendarias a uma mulher que sente que «nunca é suficiente», mesmo dando tudo de si?

Uma mudança pequena, mas muito transformadora, é começar a criar uma pausa entre aquilo que sentes que «deverias» fazer e aquilo que realmente fazes.

Muitas mulheres autoexigentes funcionam em modo automático: surge uma necessidade externa, uma tarefa, uma exigência… e respondem sem passarem por si próprias. Por isso, o gesto prático é este: antes de acrescentares algo à tua lista, pergunta-te «qual é o custo disto para mim agora?».

Não apenas em tempo, mas em energia emocional, cansaço, descanso, paciência. Essa pergunta obriga-te a incluir-te na equação. Nem sempre vais poder dizer que não, mas começar a ver o custo já muda a relação contigo.

A autoexigência desmedida alimenta-se de te ignorares. Começar a ter-te em conta, mesmo em decisões pequenas, é uma forma muito concreta de quebrar essa lógica de «eu fico sempre para o fim».

Porque é que a culpa surge tão frequentemente quando uma mulher começa a estabelecer limites, e como pode geri-la de forma mais compassiva?

Porque, para muitas mulheres, estabelecer limites não é apenas fazer algo diferente ─ é questionar a forma como aprenderam a ser e a relacionar-se. Aprenderam, de forma muito profunda, que ser uma «boa mulher» é estar disponível, adaptar-se, não incomodar, sustentar os outros mesmo à custa de si próprias. Quando começam a impor limites, não estão apenas a mudar um comportamento, estão a sair de um papel que lhes dava pertença e reconhecimento.

Por isso surge a culpa. Nem sempre porque estejam a fazer algo errado, mas porque, por dentro, sentem que estão a trair uma ideia muito antiga: «se cuido de mim, sou egoísta.»
Gerir essa culpa de forma mais compassiva implica compreender que ela não é uma inimiga, mas um sinal de transição. Em vez de lutar contra ela, pode ser mais útil perguntar: «que parte de mim aprendeu que ter limites era perigoso para ser amada ou aceite?» Essa pergunta liga-te à tua história, ao que aprendeste na tua família sobre como te devias comportar para seres amada, e à forma como aprendeste a conquistar amor.
Não se trata de esperar que a culpa desapareça para cuidares de ti, mas de começares a cuidar de ti com a culpa incluída, entendendo que estás a aprender uma forma nova e mais saudável de estar nas relações, onde tu também contas.

Se tivesses de resumir numa ideia-chave a mensagem central de Mulheres que se Exigem Demasiado, qual seria para as leitoras portuguesas?

Que o problema não é seres exigente, mas teres aprendido a tratar-te como se nunca fosses suficiente.

O livro não convida a deixares de ser responsável nem a deixares de te envolver, mas a reveres a partir de onde o fazes. Muitas mulheres vivem a tentar compensar uma sensação interna de «não sou suficiente» através de fazer tudo bem, estar para todos e nunca falhar. Mas, por muito que façam, a sensação de fundo não muda.

A proposta é começar a sair dessa forma de funcionamento em que tens de provar constantemente o teu valor e construir uma relação contigo mais humana, onde possas cansar-te, precisar, errar ou não chegar a tudo… sem sentires que, por isso, vales menos.
Não se trata de exigir-te menos, mas de deixares de exigir-te a partir do medo de não seres suficiente.

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