Na sua nova obra, A História Secreta dos Reis de Portugal, Pedro Rabaçal convida-nos a atravessar os bastidores da História e a descobrir os homens por trás da coroa. Longe da narrativa oficial feita de datas e batalhas, emergem paixões proibidas, conspirações palacianas, excessos, devoções e fragilidades profundamente humanas.
Nesta mini-entrevista, o autor partilha o fascínio pelas vidas intensas (e tantas vezes contraditórias) daqueles que moldaram o destino do país. Porque, afinal, os reis também foram feitos de carne, desejo e erro.
Algum episódio, personagem ou descoberta em particular instigou este livro?
Um em particular, outros em geral. A maioria do público pouco sabe das vidas e políticas dos monarcas, sabendo o essencial, ou menos, além de mitos populares e académicos. O pior mito é o de que a História é “aborrecida”. Ensinada da maneira certa, pode ser mais fascinante do que muitos filmes e romances!
Uma personagem em particular foi D. Filipe I, mais conhecido como Felipe II de Espanha, sendo ignorados a sua vida e feitos sem relação com Portugal. Ora, foi o soberano do maior império da época, o primeiro dotado de possessões em quatro continentes, ao qual adicionou o português, sendo a sua época e realizações muito importantes para Espanha e o Mundo.
As suas relações com Inglaterra alteraram a face da Europa, culminando no famoso desastre da Invencível Armada, cuja vitória teria evitado a ascensão do império britânico. E a Invencível Armada foi um projeto luso-espanhol, sendo mesmo construída em Portugal, tendo largado amarras em Lisboa!
Acredita que o poder amplifica o carácter de uma pessoa ou acaba por o deformar?
Acredito numa mistura de ambos. Todos nós temos desejos reprimidos que não podemos exprimir por falta de oportunidade ou de coragem. Veja-se o exemplo clássico de um empregado convertido em patrão que começa a tratar com desprezo os colegas e superiores que o desprezavam, ou mesmo os antigos amigos que o ajudavam. Ou o vencedor da lotaria que deixa de ser poupado e solteiro e se converte no perdulário promiscuo que sempre sonhou ser. Estar em cargos de poder não costuma favorecer o melhor da nossa natureza.
Todavia, a ascensão ao poder resulta amiúde de intrigas, violências, corrupção, pelo que os vícios pessoais podem ajudar. D. Afonso Henriques não fundou o seu reino privado abraçando a paz nem cumprindo juramentos de lealdade. Se D. Afonso III tivesse sido um bom marido e um irmão leal, nunca teria ascendido ao trono.
O adágio “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente” baseia-se em tantos exemplos reais. Menos famosa é a afirmação a respeito de o poder revelar a verdadeira face. Por outro lado, existem casos minoritários em que o poder parece aperfeiçoar o governante, por ser encarado com um sério sentido de responsabilidade. O boémio e irresponsável D. Pedro I tornou-se num rei dedicado aos deveres de Estado, punindo severamente os criminosos da classe dos poderosos. O descendente homónimo D. Pedro V era um “rapaz bem-comportado” dedicado às obrigações do seu cargo, em publico e privado. No fundo, a autoridade e a adversidade revelam a verdadeira personalidade.
Há algum episódio da vida íntima de um rei que considere particularmente revelador do seu exercício do poder?
No caso de D. João II existem dois, reveladores da sua personalidade manipulativa e ardilosa, dignas de elogios de Maquiavel. Quando sentenciou à morte o duque de Bragança, derramou lágrimas em público, levando muitos a crerem num possível perdão. Na realidade estava à espera da reação dos reis de Espanha e quando esta revelou indiferença, pôde executar o duque à vontade, sem se esquecer de chorar outra vez. Em suma, fingiu ser severo por puro sentido de justiça e não por crueldade, ao mesmo tempo que estava a ganhar tempo.
Foi mais célebre, e igualmente reveladora, o caso do duque de Viseu, D. Diogo, suspeito de planear assassinar o rei, tal como o duque de Bragança. D. João II perguntou-lhe o que faria a quem o quisesse matar, sendo a resposta ducal: “Matá-lo-ia!” E assim, o rei apunhalou-o até à morte, dizendo estar a fazer o que ele próprio tinha sugerido. Ao matar um poderoso com as próprias mãos, mostrou estar acima da lei, não ter receios nem escrúpulos quanto a esmagar os inimigos, não importava quão poderosos eram nem os laços de família (D. Diogo era seu cunhado, irmão da sua mulher). Além de ser zombeteiro e manipulador ao mostrar que fez o que a sua vítima teria feito no seu lugar.
Como equilibrou o rigor histórico com uma escrita narrativa mais cativante?
Foi fácil, embora exija esforço. Os relatos e mitos históricos são fascinantes o suficiente para inspirar a ficção, abundando as histórias “baseadas em factos reais”. Em vez de alterar a veracidade histórica para tornar os textos mais “interessantes”, prefiro recorrer à descrição de eventos curiosos, cómicos ou sinistros para mostrar como a História não é aborrecida, sem descer ao baixo nível do sensacionalismo.
Uma boa maneira de educar e divertir ao mesmo tempo são as historietas biográficas, muito reveladoras sobre tradições antigas e os temperamentos de personalidades históricas. Eis um exemplo macabro: D. Filipe I disse a um condenado à morte por heresia que enviaria o seu filho para a fogueira se também fosse herético como ele, frase digna de um soberano dedicado ao extermínio de todos os que não eram católicos. Por outro lado, tais historietas mostram como as gentes do passado eram seres humanos, apesar de viverem em épocas diferentes.
Sendo muitos relatos baseados em rumores e as crónicas antigas forçadas a glorificar os reis, é natural imaginar teorias que questionam as tradicionais, numa mistura de criatividade e credibilidade. Aliás, os conhecimentos atuais permitem-nos contestar os relatos baseados em preconceitos ultrapassados, como o do “bom” rei D. Fernando I corrompido pela malvada Leonor Teles. E é sempre uma surpresa conhecer as verdadeiras faces de pessoas habitualmente descritas por chavões como exemplares, maléficas ou ridículas. Longe de ser estática, a História é um processo de constantes descobertas e reformulações.
Qual foi o rei que mais o surpreendeu durante o processo de escrita e porquê?
Houve vários à sua maneira. Mas o principal foi D. João I, cujos feitos inauditos e espantosos não foram comuns, mesmo considerando a propaganda oficial. Foi o único infante de nascimento ilegítimo a ser coroado rei em toda a História nacional, ao derrotar a invasão castelhana converteu a pátria na única nação ibérica a escapar ao domínio espanhol, protegeu os judeus da intolerância, soube escolher uma esposa admirável e talentosa e educar filhos cultos e inovadores. Verdade ou não, só o facto de se apresentar como agraciado com um casamento feliz mostra como valorizava o amor conjugal numa época de consórcios sem amor impostos por razões de Estado.
Como se não bastasse, ao conquistar Ceuta e ao dar início às viagens ultramarinas, deu à luz os Descobrimentos que tão radicalmente alteraram o Mundo. Finalizando, foi ele quem adoptou o calendário cristão, substituindo o de César, ou seja, alterou até a contagem dos anos! Nunca um monarca trouxe tantas mudanças a Portugal nem subiu ao trono apesar de tantos obstáculos.
Se estes reis pudessem hoje ler o livro, qual acha que seria a reação mais comum: indignação, reconhecimento ou silêncio?
Sobretudo, indignação, como é lógico. As crónicas estatais tinham a obrigação de elogiar a dinastia reinante e de ocultar, justificar ou apoiar os seus actos polémicos. Assim, as guerras e políticas eram apresentadas como movidos por intenções idealistas (proteger e expandir a fé), mas prefiro a tendência moderna de revelar intenções mais materialistas (proteger e expandir riquezas e poder). Não justifico crimes motivados pela sede de poder e de riquezas, nem desvalorizo os vícios privados, alguns dos quais escandalizariam as gerações actuais. Veja-se o caso de D. Pedro IV, cuja obsessão pelo sexo não soa viril, mas muito egoísta quando se pensa no sofrimento das esposas e nas caríssimas “cunhas” das amantes e respetivas famílias pagas pelo erário público.
Talvez houvesse reconhecimento em alguns casos, ao descrever grandes feitos ou virtudes pessoais raras. Elogiei os esforços de D. Pedro V para ser um homem e rei exemplares, em vez de recorrer ao poder para satisfazer o seu ego e as elites.
Esforcei-me para desmentir as incorretas imagens populares de alguns, como D. Maria I, geralmente descrita como uma beata insana, mas que muito fez para desenvolver a cultura, sociedade e mesmo a ciência portuguesas. Até as causas dos seus problemas mentais costumam ser mal explicadas, havendo quem diga resultarem do trauma da morte de vários entes queridos. Ora, havia um longo historial de distúrbios mentais hereditários entre os seus antepassados, agravado por sucessivos casamentos consanguíneos na maioria das dinastias europeias.






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