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Entrevista a Helmut Ortner - Alma dos Livros

Entrevista a Helmut Ortner

Na sua opinião, qual foi o acontecimento decisivo para consolidar o poder nazi?

O nacional-socialismo não foi um mero «acidente de percurso» na história alemã. Não é fruto de um acontecimento único, pelo contrário. Foram muitos os fatores e circunstâncias políticas, tanto internas como externas. Tudo isto contribuiu para a ascensão de Hitler e da propaganda nazi consolidando depois a sua ditadura. Em suma, não há explicações simples para a ascensão e queda do nacional-socialismo e para a violência no Estado de Hitler

Como olha para os protagonistas da História naquela altura?

«Um povo, um império, um líder» era a grande promessa coletiva. Sim, havia as celebridades nazis: Hitler, Goebbels. Himmel e Heydrich... todos figuras desprezíveis. Mas qualquer ditadura precisa de pessoas que já estejam dispostas a juntar-se a ela, a participar, a marchar com ela: membros entusiastas do partido, apoiantes, carreiristas, oportunistas. Os alemães votaram maioritariamente em Hitler. Hitler não veio ter com os alemães… os alemães foram ter com Hitler.

Acredita na possibilidade de alguma vez compreendermos cabalmente o Holocausto?

«Como foi possível o Holocausto?» continua a ser uma das questões cruciais, até hoje. Existem muitas controvérsias científicas e histórico-políticas. Sempre existiu um antissemitismo latente na Alemanha. Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha derrotada encontrava-se numa grande crise económica. Hitler culpou os judeus pela derrota e construiu uma imagem do inimigo. A partir de 1933, multiplicaram-se as leis e os decretos dirigidos especificamente contra a população judaica. O resultado foi a Shoah, o Holocausto, o assassínio de seis milhões de homens, mulheres e crianças judeus… Um crime único contra a humanidade que mostra a que pode conduzir a ilusão nacional e o fanatismo ideológico

Quem era o homem que quis matar Hitler?

Georg Elser era um jovem que trabalhava como carpinteiro. Vinha de uma cidade de província no sul da Alemanha. Desprezava os nazis e decidiu matar Hitler com uma bomba porque queria «evitar a guerra». A bomba de fabrico caseiro explodiu a 8 de novembro de 1939, durante um discurso de Hitler em Munique. Houve mortos e numerosos feridos. Mas Hitler sobreviveu porque terminara o seu discurso mais cedo e já tinha abandonado a sala. Nessa mesma noite, Georg Elser foi preso. A odisseia do assassino pelas prisões e campos começa e termina com o seu assassinato no campo de concentração de Dachau, vinte dias antes da invasão americana. O meu livro (O Homem que Tentou Matar Hitler) conta a história de vida deste jovem corajoso.

Como vê o facto de muitos nazis terem escapado e vivido tranquilamente as suas vidas após o fim da guerra?

Alguns anos após o fim da guerra, uma nação de membros e apoiantes do partido nazi tinha-se tornado uma nação de «inocentes». O discurso coletivo: ninguém sabia de nada. Eis a teia da mentira da vida de muitos alemães na república do pós-guerra! O lema: reprimir, esquecer, negar. Muitos criminosos continuaram as suas carreiras, receberam pensões ou fugiram para o estrangeiro. Já com as vítimas foi bem diferente! Tiveram de lutar pela sua reabilitação, por indemnizações e pelo reconhecimento. Foram Todos Nazis é sobre isso mesmo, sobre esta verdade escandalosa.

O que nos pode dizer sobre a famosa Ratlines e a sua ligação ao Vaticano?

A Igreja Católica, em particular o Vaticano, ajudou antigos criminosos nazis a fugir através de canais obscuros, com documentos falsos, sobretudo para a América do Sul. Uma cumplicidade católico-fascista organizada por padres, bispos e cardeais. Uma monstruosidade...

Escreveu sempre tudo o que quis?

Pesquiso temas, escrevo textos e publico livros que são importantes para mim. Contra o Zeitgeist, contra o esquecimento pela defesa do humanismo. Vejo-me como um iluminador da escrita!

O que pensa acerca dessa impunidade de quem manchou a História da História com sangue e terror?

Na Alemanha do pós-guerra, muitas pessoas quiseram separar os «anos negros» da sua própria experiência e envolvimento. Hitler era suposto ser o único responsável pela ruína dos alemães e pelos seus milionários crimes. Uma lenda conveniente. Era uma forma de relativizar a culpa pessoal. O respeito pelos enlutados obriga-nos a nomear os culpados e a responsabilizá-los. Os crimes dessa época são demasiado graves para que se possa dizer hoje: «Chegou a altura de lhes pôr termo.» Para mim, a responsabilidade das gerações atuais começa com a questão de saber se querem recordar?…

Acredita na hipótese de ainda haver tentáculos desses militares, políticos e espiões na sociedade atual?

A tirania e a barbárie reinventam-se constantemente. E continuam a atuar, também, na ignorância, na indiferença e na falsificação. No pior dos casos, na repetição. Os meus livros são sobre isso.

Por fim, uma pergunta sobre a atualidade. Como perspetiva o evoluir da Guerra na Ucrânia?

A guerra é um desastre para o mundo inteiro, mas sobretudo para a Ucrânia. É uma guerra de agressão de Putin, uma violação do direito internacional. A guerra de Putin revela o padrão de todas as guerras: propaganda, conformidade, perseguição, tirania e mentiras. Temos de apoiar a Ucrânia. Esta é a condição prévia para as negociações de paz. A duração da guerra depende apenas de Putin.

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O Homem que Tentou Matar Hitler

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Comentários

Jose Noronha - dezembro 8, 2023

Ainda não li os livros do autor Helmut Ortner, pelo que li agora da entrevista, revejo-me inteiramente com a perspectiva do autor. Também acho que é necessário relembrar para não cair no esquecimento tão brutal e cruel acontecimento, até para as gerações futuras saibam o que um dia foi possivel fazer e que sejam identificados os principais autores e mentores de tão odioso crime contra a vida humana, contra o respeito sobre al vida! É preciso falar sem tabus. Aconteceu, foi muito mau, temos de mostrar remexer no que se passou, sempre com o intuito de elucidar e educar para nunca mais acontecer!

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